A falta de leitos de UTI pediátrica, a escassez de materiais essenciais e a desestruturação da equipe médica levaram à interrupção das cirurgias cardíacas pediátricas eletivas na Santa Casa de Campo Grande. O serviço passa a concentrar esforços nos casos de urgência e emergência, enquanto pacientes que aguardam procedimentos eletivos enfrentam um cenário de incerteza.
A situação foi confirmada pela cirurgiã Aparecida Afif, responsável pelo setor há 31 anos. Segundo ela, os cinco profissionais que integravam a equipe de cirurgia cardíaca pediátrica pediram demissão diante da deterioração das condições de trabalho.
A médica afirma que a decisão não foi tomada por falta de compromisso com os pacientes, mas justamente para evitar que crianças fossem submetidas a procedimentos sem a estrutura necessária para garantir segurança durante e após as operações.
“Quem sofre nessa história toda é a criança. Nós fizemos isso para preservar as crianças. Não queremos fazer as coisas de qualquer maneira”, afirmou Aparecida.
Entre os principais problemas apontados está a insuficiência de leitos de UTI. Atualmente, a Santa Casa dispõe de seis leitos, que, segundo a médica, permanecem constantemente ocupados.
A disponibilidade de UTI é fundamental para a realização das cirurgias cardíacas pediátricas, principalmente no período pós-operatório. Sem uma vaga assegurada, os procedimentos eletivos não podem ser realizados com a segurança necessária.
Aparecida afirma que a ampliação da estrutura já havia sido solicitada em 2006, com a previsão de aumento de seis para dez leitos. A mudança, porém, não teria sido concretizada.
A estrutura disponível hoje é, segundo ela, praticamente a mesma existente desde a implantação do serviço, em 1995.
Além da falta de leitos, a médica relata dificuldades para obtenção de materiais indispensáveis aos procedimentos, incluindo equipamentos como marcapasso, utilizado para auxiliar no controle do ritmo cardíaco.
De acordo com Aparecida, o serviço passou por períodos de dificuldades ao longo de mais de três décadas, mas a situação começou a se agravar significativamente a partir de 2017, quando quatro dos seis cardiopediatras que atuavam com a equipe deixaram o serviço.
Desde então, a unidade enfrentou sucessivas dificuldades para recompor e manter uma equipe especializada.
Para a cirurgiã, o atual momento é o mais crítico em três décadas de atuação.
“Nunca passamos por uma situação assim, em 30 anos”, lamentou.
A médica também fez questão de esclarecer que os atrasos nos pagamentos, embora sejam um problema, não foram o único motivo para a saída dos profissionais.
Segundo ela, a decisão ocorreu principalmente em razão da falta de materiais e da desagregação progressiva da equipe médica.
Outro reflexo direto da crise é o crescimento da fila por cirurgias cardíacas pediátricas eletivas.
Aparecida relata que há anos responde a questionamentos do Ministério Público sobre a demora para realização dos procedimentos. Segundo ela, a principal justificativa apresentada é a falta de leitos de UTI.
Com os leitos ocupados por pacientes em situação grave, casos eletivos acabam sendo adiados.
A médica explica que, diante da necessidade de escolher entre uma criança que aguarda uma cirurgia programada e um recém-nascido em risco de morte, a prioridade naturalmente é dada ao paciente em estado mais grave.
A situação se tornou ainda mais preocupante porque, segundo Aparecida, desde setembro de 2025 não são realizadas cirurgias cardíacas pediátricas eletivas na unidade, devido à predominância dos atendimentos de urgência e emergência.
A decisão de interromper os procedimentos eletivos, segundo Aparecida, foi tomada diante de um limite que considera fundamental: a segurança do paciente.
“Até onde vai o amor pelas crianças? Até o momento em que há segurança”, declarou.
Mesmo com a saída dos demais integrantes da equipe, a cirurgiã afirmou que continuará disponível para atender casos urgentes e emergenciais enquanto não houver uma nova equipe ou uma definição sobre o futuro do serviço.
A situação ganha ainda mais gravidade porque, conforme relatado pela médica, não há outro hospital realizando cirurgias cardíacas pediátricas pelo SUS em Mato Grosso do Sul.
Isso significa que uma eventual interrupção prolongada pode provocar impactos diretamente na assistência às crianças com cardiopatias que dependem da rede pública.
Apesar das dificuldades atuais, Aparecida lembra que a equipe conseguiu cumprir, até o ano passado, a meta estabelecida pelo Ministério da Saúde: 10 cirurgias por mês, totalizando 120 procedimentos por ano.
Procurada, a Secretaria Municipal de Saúde (Sesau) informou que não recebeu comunicação oficial da Santa Casa sobre a suspensão das cirurgias cardíacas pediátricas eletivas.
Segundo a pasta, o convênio atualmente vigente tem validade até 30 de novembro de 2026 e estabelece que alterações nos serviços devem ser comunicadas por escrito com antecedência mínima de 180 dias.
Caso seja confirmada uma interrupção unilateral em desacordo com as regras previstas no contrato, a secretaria informou que poderá aplicar penalidades contratuais, após a abertura de processo administrativo.
A Sesau também informou que prepara um edital de credenciamento de serviços de cardiologia pediátrica. O processo está em fase de estudos técnicos e ainda não há prazo definido para sua conclusão.
Sobre os recém-nascidos com cardiopatias, a secretaria afirmou que os atendimentos devem seguir os fluxos de regulação do SUS, com encaminhamento para outra unidade quando o hospital de origem não possuir os recursos necessários.